Sendo especialista em segurança institucional e proteção de autoridades, Ernesto Kenji Igarashi destaca que nenhuma organização escolhe o dia de sua crise, mas todas escolhem, muito antes dela, se estarão preparadas quando o telefone tocar de madrugada. Em julho de 2026, com informações circulando em tempo real, vídeos de celular chegando à imprensa antes dos relatórios internos e stakeholders exigindo posicionamento em minutos, a janela para organizar a resposta encolheu dramaticamente. O que antes se resolvia em uma semana de apuração, hoje se decide, para o bem ou para o mal, nas primeiras 24 horas.

Nos próximos parágrafos você encontrará a anatomia dessas horas decisivas, os erros que mais destroem valor nesse intervalo e as práticas que separam respostas profissionais de improvisos caros.

Qual é a diferença entre acionar e descobrir?

A crise real quase nunca começa quando a diretoria fica sabendo; ela começa antes, no chão da operação, e o tempo entre o evento e o acionamento formal é o primeiro indicador de maturidade da empresa. Organizações preparadas possuem critérios objetivos de escalonamento, definindo previamente quais situações exigem despertar o comitê de crise, sem depender do julgamento solitário de um supervisor receoso de incomodar superiores. Ernesto Kenji Igarashi explica que os maiores desastres corporativos costumam carregar um histórico de sinais reportados tarde demais, exatamente porque a cultura interna punia o alarme falso mais do que o silêncio.

Assim que o acionamento ocorre, a primeira hora deve ser dedicada a três verificações inegociáveis: pessoas (há vítimas, feridos, desaparecidos), contenção (o evento ainda está em curso ou foi estabilizado) e integridade da informação (o que sabemos com certeza, o que é suposição). Confundir hipótese com fato nesse momento contamina todas as decisões seguintes, motivo pelo qual equipes treinadas registram formalmente o grau de confiabilidade de cada dado que chega à sala de crise.

A sala de crise não é lugar de hierarquia decorativa

O comitê de crise eficaz é pequeno, tem papéis pré-definidos e autoridade real para decidir. Nele coexistem, no máximo, um coordenador geral, responsáveis por operações, comunicação, jurídico e pessoas, além de um registrador dedicado a documentar decisões e horários, função subestimada que se revela preciosa em investigações e litígios posteriores. Ao passo que muitas empresas inflam essa mesa com dezenas de executivos, transformando a resposta em assembleia, as estruturas de alto desempenho seguem a lógica das operações críticas de segurança: poucas vozes, mandatos claros, ciclos curtos de decisão e reavaliação.

Como especialista em segurança institucional e proteção de autoridades, Ernesto Kenji Igarashi observa que a proteção de autoridades oferece uma lição direta para o ambiente corporativo, uma vez que, nesse campo, a tomada de decisão sob pressão é treinada até virar procedimento, com alternativas de ação previamente estudadas para cada cenário. Transportada para a gestão de crises empresarial, essa lógica significa que o comitê não deve criar soluções do zero durante a emergência, deve escolher entre rotas já mapeadas no protocolo, adaptando o que for necessário, o que reduz drasticamente o tempo de resposta e o risco de decisões emocionais.

Ernesto Kenji Igarashi
Ernesto Kenji Igarashi

O silêncio das primeiras horas custa mais caro que a notícia ruim

Ernesto Kenji Igarashi alude ainda que, no campo da comunicação, o erro clássico das primeiras 24 horas é esperar ter todas as respostas para falar. Enquanto a empresa apura, o vácuo informativo é preenchido por especulação, vazamentos e narrativas de terceiros, e recuperar o controle do enredo depois disso é exponencialmente mais difícil. A prática recomendada é a manifestação inicial rápida, ainda que curta, reconhecendo o ocorrido, expressando prioridade às pessoas afetadas e informando que a apuração está em curso, com compromisso de atualizações em horários definidos. Esse simples gesto reposiciona a organização como fonte primária da própria história.

Igualmente crítico é o alinhamento interno. Colaboradores descobrindo a crise pela imprensa tornam-se, involuntariamente, multiplicadores de desinformação e ressentimento. Por consequência, o protocolo maduro prevê comunicação simultânea, ou quase, para dentro e para fora, com mensagens coerentes entre si e porta-vozes formalmente designados, evitando o cenário comum em que cada gerente improvisa sua própria versão dos fatos.

Conservar provas enquanto o fogo ainda arde

Um aspecto frequentemente negligenciado nas primeiras 24 horas é a preservação de evidências físicas e digitais, registros de câmeras, logs de sistemas, documentos, comunicações e a própria cena do evento, quando aplicável. Decisões tomadas no calor da resposta, como reativar rapidamente uma área ou apagar comunicações sensíveis, podem configurar destruição de provas e converter um acidente em passivo jurídico gravíssimo. Ernesto Kenji Igarashi aponta que a disciplina de cadeia de custódia, rotina em investigações de segurança institucional, precisa estar incorporada ao protocolo corporativo antes da crise, pois ninguém aprende esse rigor durante o caos.

A documentação em tempo real das decisões do comitê protege a própria liderança. Meses depois, quando reguladores e auditores reconstituírem os fatos com a calma que a equipe não teve, o registro fiel de quem decidiu o quê, quando e com base em quais informações disponíveis será a diferença entre demonstrar diligência e parecer negligência.

Preparo é a única variável que a crise não controla

O repertório de ameaças seguirá se expandindo nos próximos anos, combinando riscos físicos, tecnológicos, climáticos e reputacionais em eventos cada vez mais híbridos e velozes. Diante disso, a única assimetria disponível para as organizações é o preparo: protocolos vivos, comitês treinados em simulações realistas, porta-vozes formados antes da necessidade e lideranças habituadas a decidir sob pressão. 

Empresas que ensaiam suas piores 24 horas em ambiente controlado descobrem fragilidades a custo zero, enquanto as demais pagam por essa descoberta em condições reais. Como pontua Ernesto Kenji Igarashi, a gestão de crises madura é, em essência, um investimento em velocidade e lucidez para o dia em que ambas valerão mais do que qualquer orçamento. 

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