Tecnologia instalada na Serra do Amolar monitora mais de 1 milhão de hectares no Pantanal e ganha reforço diante da chegada de um El Niño considerado potencialmente o mais intenso das últimas décadas
A intensificação do fenômeno climático El Niño, com previsão de atuação entre setembro de 2026 e março de 2027, acendeu um novo alerta para o risco de incêndios florestais em Mato Grosso do Sul. Nesse cenário, uma tecnologia desenvolvida e implantada na região de Corumbá tem se consolidado como aliada estratégica no combate ao fogo em áreas remotas do Pantanal: o Sistema Pantera, que utiliza inteligência artificial para identificar princípios de incêndio em poucos minutos.
Segundo modelos meteorológicos, a probabilidade de que o El Niño atinja as categorias “forte” ou “muito forte” chega a cerca de 90%, o que pode resultar no episódio mais intenso já registrado nas últimas décadas. O fenômeno já vem influenciando o clima da região desde agosto, intensificando o calor, reduzindo a umidade relativa do ar e tornando as chuvas mais irregulares, condições que favorecem a propagação de queimadas em áreas de vegetação nativa.
Câmeras instaladas na Serra do Amolar monitoram até 1 milhão de hectares
O Sistema Pantera foi desenvolvido pela startup brasileira Um Grau e Meio e teve sua primeira implantação em Mato Grosso do Sul em 2022. A estrutura está instalada ao longo da Serra do Amolar, no norte de Corumbá, e conta com cinco câmeras posicionadas em antenas ao longo dos rios Paraguai e São Lourenço, com altura máxima de mil metros. Juntas, elas monitoram uma área de até 1 milhão de hectares, incluindo trechos que avançam sobre o corredor de biodiversidade em direção a Mato Grosso e à Bolívia.
O funcionamento é contínuo, 24 horas por dia, sete dias por semana, e a operação na região está sob gestão do Instituto Homem Pantaneiro (IHP), por meio do projeto Abrace o Pantanal. Cada câmera tem raio de alcance de 30 quilômetros e é capaz de monitorar, isoladamente, cerca de 280 mil hectares, segundo o analista de tecnologia do IHP, Igor Souza.
Diferença crucial em relação ao monitoramento por satélite
A principal vantagem do sistema em relação às tecnologias tradicionais de monitoramento está no tempo de resposta. Enquanto sistemas de detecção por satélite identificam focos de calor somente entre seis e oito horas após o início da ocorrência, a inteligência artificial treinada no Sistema Pantera consegue detectar sinais de fumaça em apenas três a cinco minutos, ainda na fase inicial do fogo.
De acordo com Souza, essa velocidade de identificação faz toda a diferença na hora de mitigar um princípio de incêndio, já que, quanto mais cedo a ocorrência é localizada, menor é o esforço necessário para contê-la. As câmeras captam imagens que são analisadas pela inteligência artificial, treinada para diferenciar fumaça de poeira ou neblina, tanto durante o dia quanto à noite, e o sistema passa por aprimoramento constante para aumentar a precisão dessas identificações.
Notificações automáticas chegam a órgãos de combate ao fogo em tempo real
Quando o sistema identifica um possível foco de incêndio, as notificações são emitidas automaticamente, em tempo real, permitindo que as equipes se mobilizem com rapidez. A plataforma também cruza informações como temperatura, velocidade do vento e umidade relativa do ar, o que possibilita projeções sobre a direção de propagação das chamas.
Esses dados são compartilhados simultaneamente com o Prevfogo/Ibama, a Polícia Militar Ambiental de Mato Grosso do Sul, os Corpos de Bombeiros de MS e do Mato Grosso, a Polícia Federal, o Ministério Público Estadual e também com instituições do lado boliviano da fronteira, como a Armada da Bolívia e a ONG Nativa, o que amplia a capacidade de resposta binacional em uma região de difícil acesso.
Redução de área queimada comprova eficácia da ferramenta
Segundo o IHP, os desafios para preservar o Pantanal na região da Serra do Amolar esbarram diretamente na logística: muitas áreas não têm estradas e só podem ser acessadas por rio ou por via aérea, com deslocamentos que podem levar mais de sete horas. É justamente nesse contexto que a detecção antecipada faz diferença prática. Entre 2020 e 2023, a redução da área queimada na região chegou a 90%, resultado da combinação entre o uso do Sistema Pantera e outras ações de prevenção, como o trabalho da Brigada Alto Pantanal.
Considerando um recorte mais amplo, entre 2020 e 2024, a equipe do instituto estima uma redução de cerca de 60% na área queimada na Serra do Amolar, resultado atribuído ao conjunto de medidas que incluem monitoramento tecnológico, brigadas locais e ações de educação ambiental voltadas às comunidades da região.
Governo do Estado amplia uso da tecnologia para outras áreas de MS
Em 2026, o uso do Sistema Pantera foi ampliado em Mato Grosso do Sul. O Governo do Estado, por meio do Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (Imasul), e a empresa Bracell aderiram ao projeto de monitoramento, com vigência de dez anos, agora também implementado no Parque Estadual Pantanal do Rio Negro, em Aquidauana, unidade de conservação com 76.852 hectares.
Nessa nova frente, a estrutura conta com torres equipadas com câmeras Full HD de alta resolução, zoom óptico de no mínimo 30 vezes e giro contínuo de 360 graus, operando de forma autossuficiente em energia. As imagens e os alertas gerados pela inteligência artificial são direcionados a salas de controle integradas em Campo Grande, no Centro Integrado de Operações de Segurança (Ciops) e no Centro de Proteção Ambiental do Corpo de Bombeiros.
Tecnologia se soma a outras ferramentas no combate ao fogo
O subdiretor de Proteção Ambiental do Corpo de Bombeiros Militar de Mato Grosso do Sul, major Eduardo Rachid Teixeira, destacou que a confiança das equipes para enfrentar a temporada de queimadas de 2026 vem, em parte, da intensificação de investimentos em tecnologia, que hoje compõe praticamente todas as etapas de prevenção e combate aos incêndios florestais, do uso de drones com câmeras térmicas às plataformas de monitoramento integradas.
Segundo o major, mesmo diante de um cenário climático mais desfavorável, a experiência acumulada desde a crise de 2024, quando o Pantanal enfrentou a pior estiagem em mais de um século, tem permitido um trabalho mais profissionalizado e menos reativo do que aquele observado nos primeiros grandes incêndios de 2019 e 2020, o que reforça a relevância da tecnologia desenvolvida a partir de Corumbá como referência para o restante do Estado.
Fontes consultadas:
