Pesquisadores do Thünen Institute avaliam em Corumbá o manejo do rebanho pantaneiro para calcular como as novas exigências da União Europeia contra o desmatamento vão afetar produtores locais.

Pesquisadores do Thünen Institute of Forestry, da Alemanha, passaram uma semana em Corumbá, no Mato Grosso do Sul, coletando dados sobre o modelo de pecuária extensiva praticado no Pantanal. A visita técnica, realizada entre os dias 8 e 13 de junho, integra o projeto EUDR Effects, encomendado pelo Ministério Federal da Cooperação Econômica e do Desenvolvimento da Alemanha para medir os impactos da nova regulação europeia contra áreas desmatadas.

A partir de 2027, os importadores da União Europeia vão exigir comprovação detalhada de que a carne bovina adquirida não tem qualquer ligação com desmatamento. Corumbá concentra um dos maiores rebanhos do país, com cerca de 1,8 milhão de cabeças, o que tornou o município um ponto estratégico para o levantamento de informações usadas na modelagem das novas regras comerciais.

O que os pesquisadores buscaram na Nhecolândia

Os pesquisadores Richard Fischer e Caroline Salomão cumpriram uma agenda intensa de visitas técnicas na sub-região da Nhecolândia, incluindo a Fazenda Novo Horizonte, além de reuniões com produtores rurais, frigoríficos e a diretoria do Sindicato Rural de Corumbá. O objetivo era registrar, na prática, como a atividade pecuária convive com a preservação do bioma há gerações, e reunir métricas reais sobre o manejo do rebanho para alimentar modelos matemáticos e econômicos desenvolvidos na matriz do instituto na Alemanha.

Segundo o presidente do Sindicato Rural de Corumbá, Stefano Santa Lucci Rettore, a pecuária ocupa o Pantanal há mais de três séculos e sempre respeitou os ciclos naturais da região, ainda que essa característica raramente seja divulgada fora do estado. Ele destacou que a distância e a dificuldade de acesso à região dificultam o reconhecimento internacional desse modelo produtivo, mesmo que ele seja considerado exemplo de convivência entre economia e conservação ambiental.

A comitiva alemã também cumpriu agenda técnica junto à Embrapa Pantanal, o que permitiu cruzar os dados coletados em campo com pesquisas ecológicas conduzidas há anos na região. Esse alinhamento científico é visto pelo setor produtivo como um passo importante para validar, perante o mercado europeu, as práticas já adotadas pelas famílias pantaneiras.

Por que a regulação europeia preocupa o setor

As exigências da EUDR fazem parte de um movimento mais amplo de rastreabilidade ambiental que ganhou força após a COP30, realizada em Belém, e que hoje orienta acordos internacionais como o Trabalho Conjunto de Sharm el-Sheikh sobre Ação Climática em Agricultura. Para o setor produtivo de Corumbá, o desafio está em comprovar, com documentação técnica, algo que os pecuaristas locais já praticam informalmente há décadas.

A expectativa entre produtores e pesquisadores é que a inserção de exigências do mercado europeu não comprometa o equilíbrio financeiro das propriedades familiares que atuam na região há gerações. Ao mesmo tempo, o setor aposta que esse reconhecimento internacional pode abrir espaço para valorizar a carne produzida no Pantanal sul-mato-grossense, hoje concorrendo com regiões que adotaram sistemas de produção mais intensivos.

Para as autoridades europeias envolvidas no projeto, o intercâmbio direto com produtores é considerado indispensável para desenhar políticas comerciais que não penalizem regiões onde o desmatamento não é parte da cadeia produtiva. Essa etapa de campo deve orientar as próximas fases do projeto EUDR Effects, com resultados que devem influenciar diretamente as regras aplicadas às exportações brasileiras de carne bovina para o continente europeu.

O que muda para o produtor de Corumbá

Enquanto o estudo alemão avança, o cotidiano da pecuária pantaneira segue marcado por outros desafios ambientais, como o monitoramento das condições climáticas na região. O período mais seco do ano costuma aumentar o risco de queimadas, o que reforça a necessidade de dados confiáveis sobre manejo e uso da terra, exatamente o tipo de informação que a missão alemã buscou reunir junto aos produtores locais.

Especialistas ouvidos ao longo do processo destacam que a comprovação de origem sustentável tende a se tornar exigência permanente em mercados exportadores, não apenas na Europa. Nesse cenário, iniciativas como a parceria entre o Sindicato Rural de Corumbá e o Thünen Institute podem funcionar como modelo para outras regiões pecuárias do país que também vendem carne para o exterior.

O acompanhamento dos resultados do projeto deve seguir nos próximos meses, à medida que os dados coletados na Nhecolândia forem processados na Alemanha. Produtores da região aguardam que o estudo sirva de base concreta para negociações futuras sobre exigências comerciais, evitando que barreiras técnicas prejudiquem quem já pratica um modelo de criação alinhado à preservação do Pantanal.

Fontes consultadas:

Compartilhar.
Deixe uma resposta