O empresário Tiago Oliva Schietti considera essa uma das decisões mais mal compreendidas do mercado de crédito brasileiro: por que alguém que já tem o dinheiro para comprar um bem à vista escolheria entrar em um grupo de consórcio e esperar meses ou anos pela contemplação? À primeira vista, parece contraditório, mas pode fazer bastante sentido dependendo da estratégia financeira de cada pessoa.
A resposta começa com uma pergunta simples: o que esse dinheiro renderia se permanecesse investido, em vez de ser usado imediatamente na compra? Se o valor está aplicado em um investimento com boa rentabilidade, pode ser financeiramente mais vantajoso continuar rendendo esse capital enquanto se paga, aos poucos, as parcelas de um consórcio, desde que o custo total da modalidade, considerando a taxa de administração, seja inferior ao rendimento obtido no período.
O poder de negociação da compra à vista
Outro fator pouco discutido é que a carta de crédito de um consórcio contemplado funciona, na prática, como dinheiro à vista na hora da negociação com o vendedor. Isso significa que mesmo quem entrou no consórcio sem ter o valor total disponível de imediato pode, uma vez contemplado, negociar descontos semelhantes aos de uma compra à vista, uma vantagem que não existe da mesma forma no financiamento tradicional, em que o vendedor recebe o valor diretamente do banco, sem viés especial de negociação com o comprador.
Tiago Oliva Schietti pondera que essa característica muda a lógica da decisão: mesmo para quem tem recursos disponíveis, entrar no consórcio pode representar uma forma de reservar esse capital com um propósito específico, sem abrir mão do poder de negociação de uma compra à vista quando o momento chegar.
Disciplina financeira como estratégia deliberada
Há ainda um terceiro motivo, mais comportamental do que financeiro: para algumas pessoas, o compromisso mensal do consórcio funciona como uma forma de disciplina que a simples intenção de poupar não consegue replicar. Ter uma parcela fixa vinculada a um contrato reduz a tentação de usar aquele dinheiro para outra finalidade, algo que, para parte dos consumidores, é mais difícil de manter apenas com uma reserva de investimentos de livre acesso.

Esse comportamento é especialmente comum entre pessoas próximas da aposentadoria, que planejam uma viagem ou reforma para esse momento da vida: mesmo tendo capacidade financeira para guardar o dinheiro por conta própria, preferem formalizar o compromisso por meio de um consórcio, associando o objetivo a uma disciplina externa, um padrão que Tiago Oliva Schietti já observou em diferentes perfis de consorciados.
Quando essa estratégia não compensa
Por outro lado, essa lógica só faz sentido quando o custo total do consórcio, taxa de administração, fundo de reserva e eventual seguro é efetivamente inferior ao ganho obtido mantendo o dinheiro investido durante o mesmo período. Se o rendimento da aplicação for baixo, ou se o consumidor não tiver disciplina para manter o valor investido em vez de gastá-lo aos poucos, a vantagem comparativa desaparece.
O que avaliar antes de decidir?
Antes de optar pelo consórcio, mesmo tendo o valor disponível à vista, vale simular o rendimento líquido do capital se permanecesse investido durante o prazo médio até a contemplação, comparando esse ganho ao custo total da taxa de administração do grupo. Também é importante considerar o próprio perfil de disciplina financeira e se a compra à vista imediata não traria vantagens de negociação equivalentes às de uma carta de crédito contemplada.
Tiago Oliva Schietti acredita que essa decisão ilustra bem como o planejamento financeiro raramente tem uma resposta universal: o que funciona para um investidor disciplinado, com bons rendimentos aplicados, pode não fazer sentido para quem prefere a simplicidade de uma compra imediata. Diante da complexidade dessa análise, vale a pena consultar um profissional qualificado antes de decidir qual caminho seguir.
