Levantamento do MapBiomas mostra que o município liderou as perdas de superfície hídrica do país em 2025, em meio à seca prolongada no bioma pantaneiro.
Corumbá voltou a ocupar o topo de um ranking que ninguém quer liderar. Segundo dados do MapBiomas Água, o município sul-mato-grossense foi o que mais perdeu superfície de água em todo o território brasileiro no ano de 2025, com retração de 474 mil hectares em comparação à média histórica dos últimos 40 anos. O resultado confirma uma tendência que já vinha sendo observada desde 2024 e reforça a preocupação de pesquisadores, ambientalistas e produtores rurais com o futuro do Pantanal, o maior bioma de área úmida contínua do planeta.
A pergunta que fica para o morador de Corumbá e para quem acompanha de fora a situação do Pantanal é direta: o que está provocando essa perda recorrente de água em um bioma historicamente conhecido pelas cheias e pelas inundações sazonais? A resposta passa por um conjunto de fatores climáticos e por mudanças no uso da terra que vêm se acumulando ao longo de décadas, conforme apontam os próprios técnicos do MapBiomas. Mato Grosso do Sul, como um todo, registrou redução de 527 mil hectares em sua superfície hídrica no último levantamento, o que faz do estado o líder nacional de perdas, com Corumbá respondendo pela maior parte desse total.
O que os dados do MapBiomas revelam sobre o Pantanal
O MapBiomas é uma iniciativa multi-institucional que monitora, há quatro décadas, as transformações na cobertura e no uso da terra em todo o território brasileiro, incluindo o comportamento dos corpos hídricos. De acordo com o levantamento mais recente, o Pantanal encerrou 2025 com apenas 679 mil hectares de superfície de água, volume 56% inferior à média histórica de 1,56 milhão de hectares registrada entre 1985 e 2025. O bioma foi, inclusive, o único do país a permanecer todos os meses do ano em situação de déficit hídrico, o que indica uma crise persistente e não apenas um episódio isolado de seca.
Ainda assim, há um dado que traz algum alento. Em comparação com 2024, quando o Pantanal enfrentou a pior seca de toda a série histórica, com apenas 506 mil hectares de água, houve uma recuperação de 34%. Apesar dessa melhora pontual, os níveis continuam muito abaixo do padrão observado ao longo das últimas quatro décadas, segundo a pesquisadora do MapBiomas Mariana Dias. Ela explica que a dinâmica das águas na região mudou de forma estrutural: enquanto a década de 1980 foi marcada por grandes inundações, desde 2019 o Pantanal enfrenta um ciclo de secas prolongadas, e os períodos de seca e cheia são essenciais para a manutenção da biodiversidade do bioma. A Bacia do Alto Paraguai, que abrange justamente Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, é a região que mais reflete essa instabilidade hidrológica.
Outro ponto de atenção é a queda histórica da área de inundação natural do Pantanal. Em 1985, a água cobria 24% do território do bioma. Já em 2024, essa proporção havia despencado para apenas 3%, uma transformação radical na paisagem que altera diretamente a vida de comunidades ribeirinhas, produtores rurais e da fauna típica da região, como onças-pintadas, jacarés e aves migratórias que dependem das áreas alagadas para se reproduzir e se alimentar.
Quais são as causas da seca prolongada no Pantanal
Entender por que o Pantanal perde água de forma recorrente exige olhar para além do clima imediato. Segundo o MapBiomas, a expansão das atividades agropecuárias no planalto, ou seja, na região mais elevada onde nascem os rios que historicamente abastecem e inundam a planície pantaneira, tem impacto direto na redução das áreas alagadas. No mesmo período analisado pelo levantamento, a atividade minerária avançou 60% e as áreas de pastagem quadruplicaram, alterações que afetam a infiltração de água no solo e o regime natural dos rios que alimentam o bioma.
Esse processo se soma a fatores climáticos regionais e globais, como a variação de chuvas no planalto e o aquecimento médio das temperaturas, que intensificam a evaporação e reduzem a recarga dos aquíferos. O resultado prático para Corumbá é uma combinação preocupante: menos água significa também maior vulnerabilidade a incêndios florestais, já que a vegetação ressecada se transforma em combustível natural durante os períodos de estiagem mais intensos, fenômeno que a região já vivenciou de forma dramática em anos recentes, com queimadas de grandes proporções no bioma.
Vale destacar que, embora a tendência geral seja de perda, os números variam ano a ano em função do volume de chuvas registrado no período. O ano de 2025 trouxe uma recuperação parcial em relação a 2024, mas pesquisadores alertam que isso não significa reversão da crise estrutural. A combinação entre seca prolongada e crescimento das atividades produtivas no planalto continua sendo monitorada de perto por instituições como o próprio MapBiomas e por órgãos ambientais ligados ao governo de Mato Grosso do Sul, já que o equilíbrio hídrico da região tem efeito direto sobre a pecuária, a pesca e o turismo, atividades centrais da economia corumbaense.
O que isso significa para o futuro de Corumbá e do Pantanal
A liderança de Corumbá no ranking nacional de perda de superfície de água não é apenas um número isolado em um relatório técnico. Ela representa uma mudança concreta na paisagem e na rotina de quem vive na região conhecida como a porta de entrada do Pantanal. Produtores rurais que dependem do regime de cheias para a pecuária extensiva, pescadores que atuam no rio Paraguai e operadores de turismo que vendem a experiência de observar a fauna pantaneira sentem, na prática, os efeitos dessa transformação hidrológica ano após ano.
De acordo com o MapBiomas, atualmente mais de 99% da água presente no Pantanal é de origem natural, o que torna o bioma especialmente vulnerável às variações climáticas e hidrológicas, já que não há grande dependência de reservatórios artificiais que possam compensar a escassez. Em contraste, outros biomas brasileiros têm parte significativa de sua superfície hídrica composta por estruturas antrópicas, como açudes e hidrelétricas, o que oferece certa capacidade de regulação. No Pantanal, a equação é mais direta: menos chuva no planalto e menos infiltração resultam quase imediatamente em menos água na planície.
Diante desse cenário, a Prefeitura de Corumbá tem promovido iniciativas voltadas à sustentabilidade urbana e à conscientização ambiental, como a Semana do Meio Ambiente, realizada anualmente com apoio da Fundação de Meio Ambiente do Pantanal. Embora essas ações tenham caráter mais local e educativo, elas se inserem em um esforço mais amplo de adaptação às novas condições climáticas da região. O acompanhamento contínuo dos dados do MapBiomas, por sua vez, deve continuar sendo uma ferramenta essencial para que gestores públicos e produtores rurais possam planejar com mais precisão os próximos anos em um Pantanal que parece ter mudado, ao menos por agora, seu comportamento histórico.
Fontes consultadas: MapBiomas Brasil, Midiamax, Portal Amazônia
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
