Estudantes da Escola Dom Bosco criaram sistema de alerta ambiental e ganharam novo Espaço Maker com robótica e tecnologia de ponta.
No coração do Pantanal, uma escola pública estadual está mostrando que inovação tecnológica não depende de grandes centros urbanos para acontecer. A Escola Estadual Dom Bosco, em Corumbá, consolidou-se como um dos principais polos de ciência e tecnologia de Mato Grosso do Sul depois de inaugurar o Espaço Maker “Pe. Didimo de Campos Filho” e receber a Carreta Escola do Senac, ampliando significativamente o acesso de seus estudantes a recursos tecnológicos de última geração.
A novidade levanta uma pergunta natural para quem vive em Corumbá e acompanha o cotidiano da educação na região: como uma escola pública situada em uma cidade de porte médio, distante dos grandes polos tecnológicos do país, conseguiu desenvolver um projeto de inteligência artificial relevante o suficiente para chamar atenção em programas nacionais de inovação? A resposta está em uma combinação de investimento em infraestrutura, engajamento de professores e protagonismo dos próprios alunos, que enxergaram nos desafios ambientais do Pantanal uma oportunidade concreta de aplicar conhecimento técnico.
O que é o Espaço Maker da Escola Dom Bosco
A nova estrutura representa um salto na formação dos mais de 1,6 mil alunos atendidos pela unidade escolar. Com laboratórios voltados à robótica, programação, automação, eletrônica e inteligência artificial, a escola passou a oferecer experiências práticas que aproximam os estudantes das profissões e dos desafios tecnológicos do futuro, em um modelo pedagógico que une teoria e prática dentro do próprio ambiente escolar, sem depender de deslocamentos a outras cidades para acesso a esse tipo de recurso.
O Espaço Maker foi concebido para integrar ciência, tecnologia, engenharia e matemática, seguindo a metodologia internacionalmente conhecida pela sigla STEM. O ambiente conta com computadores, recursos multimídia, materiais de prototipagem, arenas de treinamento para equipes de robótica e plataformas tecnológicas como LEGO Education, Arduino e Conecta Edutec. Mais do que simplesmente disponibilizar equipamentos modernos, a proposta pedagógica busca estimular a criatividade e a resolução de problemas reais, conectando o conhecimento adquirido em sala de aula às demandas concretas do mundo contemporâneo. Um diferencial importante do espaço é a oferta de kits de Robótica para Inclusão, voltados especificamente aos estudantes público-alvo da Educação Especial, o que amplia o acesso às atividades tecnológicas e reforça o compromisso da escola com uma educação ao mesmo tempo inovadora e acessível a todos os perfis de aluno.
Como surgiu o SAVIA, sistema de inteligência artificial criado por alunos
Entre os projetos desenvolvidos pelos próprios estudantes, um dos que mais chama atenção é o SAVIA, sigla para Sistema de Alerta e Vigilância Inteligente Ambiental, criado por alunos do Ensino Médio Integrado ao curso técnico em Informática para Internet. Utilizando sensores, automação e inteligência artificial, o sistema foi desenvolvido especificamente para auxiliar na prevenção de atropelamentos de animais silvestres e na detecção precoce de incêndios florestais no Pantanal, dois dos principais desafios ambientais enfrentados pela região nos últimos anos.
A relevância do projeto ultrapassou os limites da própria escola. A iniciativa alcançou a semifinal do programa nacional Solve for Tomorrow Brasil e também foi contemplada pelo Programa de Iniciação Científica e Tecnológica, conhecido como Pictec, vinculado à Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso do Sul. Esse reconhecimento demonstra de forma concreta o potencial da pesquisa produzida dentro da escola pública e evidencia como a ciência pode nascer diretamente da realidade vivida pelos próprios estudantes, que conhecem de perto os desafios ambientais do Pantanal por viverem na região. Atualmente, mais de 30 estudantes participam do Clube de Robótica da Dom Bosco, desenvolvendo novos projetos e se preparando para competições como a Olimpíada Brasileira de Robótica, na qual aprendem na prática conceitos de programação, engenharia, automação e trabalho em equipe que dificilmente teriam acesso fora desse ambiente escolar.
Qual o papel da Carreta do Senac na formação tecnológica dos estudantes
A ampliação das oportunidades de aprendizagem na Dom Bosco ganhou um reforço adicional com a chegada da Carreta Escola do Senac, uma unidade móvel equipada com 18 notebooks, internet via satélite, sistema de sonorização, telas de projeção e ambiente climatizado. Essa parceria fortalece as ações de qualificação profissional voltadas aos estudantes e amplia a capacidade da escola para desenvolver atividades relacionadas à tecnologia, à inovação e à formação para o mercado de trabalho, funcionando como uma extensão móvel da infraestrutura tecnológica já instalada no Espaço Maker.
Entre os educadores que acompanham de perto os projetos desenvolvidos pelos alunos estão os professores Felipe de Oliveira e Bruno Silva, além do diretor-adjunto Elvécio Zequeto, responsáveis pela orientação técnica de iniciativas como o próprio SAVIA. Para o diretor da unidade, Fernando Cruz, a chegada dos novos equipamentos representa a concretização de um esforço coletivo para ampliar horizontes e garantir oportunidades reais aos jovens da região, evitando que eles precisem buscar outras cidades para ter acesso a recursos tecnológicos de qualidade. Essa visão reforça um movimento mais amplo de descentralização da inovação tecnológica no Brasil, em que escolas públicas localizadas fora dos grandes centros urbanos passam a desenvolver soluções próprias para problemas locais, em vez de apenas reproduzir tecnologias criadas em outros lugares.
Ao reunir robótica, inteligência artificial, iniciação científica e formação tecnológica em um único ambiente, a Escola Estadual Dom Bosco demonstra que inovação e educação de qualidade também podem florescer no interior do Pantanal. O caso da escola corumbaense mostra que estudantes de regiões mais distantes dos grandes centros conseguem competir, criar soluções tecnológicas relevantes e produzir conhecimento científico em igualdade de condições com jovens de qualquer outra parte do país, desde que tenham acesso à infraestrutura e ao apoio pedagógico adequados. O projeto SAVIA, em especial, ilustra bem como a tecnologia pode ser usada de forma prática para enfrentar os próprios desafios ambientais que a região pantaneira enfrenta, unindo educação, ciência e preservação ambiental em uma só iniciativa.
Fonte consultada: Diário Digital
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
